domingo, 18 de maio de 2008

Poesia

AULA DE VERÃO

Mauro Iasi

O conhecimento caminha lento feito lagarta.

Primeiro, não sabe que sabe,

E voraz, contenta-se com o cotidiano orvalho

Deixado nas folhas vividas das manhãs.

Depois pensa que sabe e se fecha em si mesmo:

faz muralhas, cava trincheiras, ergue barricadas.

Defendendo o que pensa saber

levanta certeza na forma de muro

orgulhando-se do seu casulo.

Até que maduro explode em vôos

rindo do tempo que imaginava saber

ou guardava preso o que sabia.

Voa alto sua ousadia

reconhecendo o suor dos séculos

no orvalho de cada dia.

Mesmo o vôo mais belo

Descobre um dia não ser eterno.

É tempo de acasalar, voltar à terra com seus ovos

á espera de novos e prosaicos lagartos.

O conhecimento é assim

ri de si mesmo e de suas certezas.

É meta da forma, metamorfose,

movimento, fluir do tempo

que tanto cria como arrasa.

E nos mostra que para o vôo

é preciso tanto o casulo como asa.

Coronelismo Eletrônico

Levantamento do Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação - Epcom - revela que 271 políticos no exercício de cargos públicos são concessionários de radiodifusão, o que é proibido pela Constituição. Eles pertencem aos seguintes partidos: DEM, 58; PMDB, 48; PSDB, 43; PP, 23; PTB, 16; PSB, 16; PPS, 14; PDT, 13; PL, 12; PT, 10.
Os demais não tiveram os partidos identificados, mas são prefeitos, deputados e senadores.

FONTE: Caros Amigos, maio 2008, p. 41.

terça-feira, 13 de maio de 2008

A Vingança do Berimbau

AUTORIA: Miguezim de Princesa


Superado pelo tempo,

Ensinando muito mal,

Fabricando mil diplomas

Para entupir hospital,

O doutor da faculdade

Botou, com toda maldade,

A culpa no berimbau.

II

Disse o doutor Natalino

Que o baiano é um mocó,

Sem coragem e inteligência,

Preguiçoso de dar dó,

Só liga pra carnaval

E só toca berimbau

Porque tem uma corda só.

III

O sujeito ignorante

Não conhece o berimbau,

Que atravessou o mundo

Com toda a força ancestral.

Na fronteira da emoção,

Traz da África a percussão

Da diáspora cultural.

IV

Nem Baden Powel resistiu

À percussão milenar,

Uma corda a encantar seis

Na tristeza camará

De Salvador da Bahia.

Quem toca e canta poesia

Na dança sabe lutar.

V

O doutor, se estudou,

Na certa não aprendeu nada:

Diz que o som do Olodum

Não passa de uma zoada

E a cultura baiana

É uma penca de bananas,

Primitiva e atrasada.

VI

Jimmy Cliffi, Michael Jackson,

Paul Simon e o escambau

Se renderam ao Olodum

Com seu toque genial,

Que nasceu no Pelourinho

E hoje abre caminho

No cenário mundial.

VII

O baiano é primitivo?

Veja só o resultado:

Ruy foi o Águia de Haia;

Castro Alves, verso-alado

De poeta condoreiro,

E gente do mundo inteiro

Se curvou a Jorge Amado.

VIII

Bethânea, Caetano e Gil,

Armandinho, Dodô e Osmar,

Gal Costa, Morais Moreira,

Batatinha a encantar

João Gilberto, Bossa Nova

Novos Baianos são prova

Da grandeza do lugar.

IX

Glauber, no Cinema Novo;

Gregório, velha poesia;

Gordurinha, no rojão;

Milton, na Geografia;

Anísio, na Educação;

Dias Gomes, na encenação;

João Ubaldo e Adonias.

X

Menestrel da cantoria

Temos o mestre Elomar,

Xangai, Wilson Aragão,

Bule-Bule a improvisar,

Roberto Mendes viola

A chula - semba de Angola,

Nosso samba de além-mar.

XI

Se eu fosse citar todos

Que merecem citação,

Faria um livro de nomes

Tão grande é a relação.

Desculpe, Afrânio Peixoto,

Esse doutor é um roto

Procurando promoção!

XII

Com vergonha do que fez:

Insultar toda a Nação,

O tal doutor Natalino

Pediu exoneração

E não encontra ninguém,

Nem um nazista do além,

Para tomar a lição.

XIII

O baiano é pirracento,

Mas paga com bem o mal:

Dá uma chance a Natalino

Lá no Mercado Central

De ganhar alguns trocados

Segurando o pau dobrado

Da corda do berimbau.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Sem pimenta

Assisti ao Globo Esporte hoje na expectativa de ver alguma reportagem sobre a derrota do Palmeiras no confronto com o Sport de Recife. O Leão da Ilha aplicou uma goleada. 4 a 1. Silêncio total. Apenas uma matéria sobre o verde que toma conta da cinzenta cidade de São Paulo.

Normal. Em plena ante-véspera da final do campeonato paulista, que o Palmeiras não conquista desde 1996, a Globo não iria repassar a derrota e construir na memória dos jogadores e torcedores do verdão um possível problema psicológico. Mas como liguei a televisão um pouco atrasado, posso ter perdido alguma matéria que me desminta.

Mas o que eu queria mesmo falar aqui é que a derrota me fez lembrar o jogo do Palmeiras contra o São Paulo e o tal do spray de pimenta que jogaram nos olhos dos jogadores do tricolor paulista. Será que faltou estoque para a Ilha do retiro?

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Sobre cordas e berimbaus

A entrevista do Senhor Antônio Dantas, coordenador do curso de medicina da UFBa, concedida à Folha de São Paulo ontem é apenas mais uma expressão do racismo que impera no Brasil de uma forma geral e na Bahia em especial. É o mesmo racismo que aos ventos, de norte a sul deste país, insiste em dizer que baiano é preguiçoso, que não gosta de trabalhar, que paraibano só faz coisa errada, que o sergipano só tem de bom o caranguejo e por aí afora.

Reconhecer no berimbau apenas uma corda, é miopia de uma mente que de tão brilhante, queimou os seus próprios neurônios, é não reconhecer que um instrumento como o berimbau é síntese de um processo histórico de luta e resistência. Quem só ouve uma nota só no berimbau é quem tem ouvido ariano.

E vejam que ironia. Na semana retrasada, a Universidade Federal da Bahia, em justíssima homenagem, ortogou o título de Doutor Honoris Causa ao Mestre Pastinha, Mestre esse que sempre teve na Capoeira a sua expressão de vida e de luta e que sempre viu no Berimbau muito mais do que corda, arame e pau.

O título ortogado é atribuído apenas à personalidade que se tenha distinguido pelo saber ou pela atuação em prol das artes, das ciências, da filosofia, das letras ou do melhor entendimento entre os povos.

Para o doutor dantas, isso é impossível, já que se trata de um capoeirista, tocador de berimbau, simples "pedaço de arame, pedaço de pau".

Fico também imaginando como deve ser composta a Faculdade de Música da UFBa e a Orquestra Baiana de Músicos. Se tomarmos como referência os argumentos do doutor dantas, lá não existem baianos, já que os instrumentos que lá ressoam, têm mais de uma corda. Todos os alunos devem ser oriundos do sul e sudeste do país ou da europa.

Por fim, desejo que as cordas vocais do senhor doutor dantas tenha a mesma dignidade da única corda do Berimbau e ressoem palavras e cantos de luta e justiça.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Mudança no fuso horário: o retrato de um poder sem limites
Venício A. de Lima - Publicado originalmente no Observatório da Imprensa em 22/4/2008

Até mesmo aqueles que conhecem a história da radiodifusão privada e sabem que na sua regulação – apesar de ser um serviço público concedido pelo Estado – sempre tem prevalecido o interesse dos radiodifusores, não deixaram de se surpreender.

O Congresso Nacional aprovou, na noite da sexta feira (11/4), projeto de lei que reduz de quatro para três os fusos horários no país e altera os efeitos da portaria da Classificação Indicativa no Acre e demais estados do Norte.

Como no Brasil os grandes grupos de comunicações são multimídia, isto é, abarcam empresas de radiodifusão (rádio e televisão), jornais e revistas, o lobby do setor se torna aqui mais robusto do que em outros países. E a cada nova vitória, naturalmente, esse lobby aumenta seu cacife para fazer pressão tanto junto ao Executivo quanto ao Legislativo.

Um pouco de história

O exemplo mais conhecido do poder dos radiodifusores talvez seja a derrubada, pelo Congresso Nacional, de todos os 52 vetos que o então presidente João Goulart impôs ao projeto de lei que viria a se transformar no CBT – Código Brasileiro de Telecomunicações (Lei 4.117/1962). A ampla articulação de empresários de radiodifusão e parlamentares que permitiu tamanha façanha foi liderada pelo então diretor-geral dos Diários e Emissoras Associados, João Calmon (já falecido), e dela resultou a criação da Abert – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, da qual ele se tornou o primeiro presidente.

Decorridos mais de 45 anos, o CBT (excluída a regulação da Lei Geral de Telecomunicações – Lei 9.472/1997) continua sendo a norma básica que rege a radiodifusão no Brasil e alguns dos seus vetos derrubados e omissões tornam a radiodifusão brasileira singular em todo o mundo: a duração das concessões de 15 anos para emissoras de TV e 10 anos para emissoras de rádio; a renovação automática das concessões e a ausência de qualquer norma que proíba a propriedade cruzada dos meios de comunicação.

Desde a promulgação do CBT em 1962, no entanto, são inúmeras as ocasiões em que o poder dos radiodifusores prevaleceu.

Na Constituinte de 1987-88, por exemplo, a "bancada da comunicação" conseguiu incluir normas que diferenciam a radiodifusão de outras concessões de serviço público: as concessões e suas renovações têm que ser aprovadas pelo Congresso Nacional, onde os grupos de mídia têm expressiva representação; o cancelamento das concessões só pode ser feito por decisão judicial e a não-renovação exige votação nominal de, no mínimo, dois quintos dos deputados e senadores. O Conselho de Comunicação Social, que deveria ser um órgão regulador, tendo como referência a Comissão Federal de Comunicações americana (FCC), se transformou num mero auxiliar do Congresso Nacional que, aliás, há quase dois anos sequer se reúne.

Por outro lado, nunca lograram ser regulamentados – e, portanto, não são cumpridos – os dispositivos da Constituição de 1988 que rezam não poder os meios de comunicação, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio; e que determinam a regionalização da produção cultural, artística e jornalística, a promoção da produção independente e a complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal.

A lista das "vitórias" dos radiodifusores é longa. Lembro outras: a implantação das TVs pagas via satélite (DTH) e MMDS antes da existência de qualquer regulação; a norma restritiva e excludente das rádios comunitárias (Lei 9.612/1998); a interrupção do processo de transformação da Ancine em Ancinav; a escolha do padrão japonês para a TV digital que frustrou o potencial de democratização das concessões; na Lei 11.652/2008, que criou a Empresa Brasileira de Comunicação, o veto do presidente da República ao artigo que obrigava as emissoras de TV comerciais a entregar à TV pública os sinais de jogos de seleções nacionais contratados com exclusividade e não transmitidos em seus canais; e as recentes modificações do relator no substitutivo do PL 29/2007 em tramitação na Câmara dos Deputados, em relação às cotas de programação do conteúdo nacional na TV paga.

É ainda o interesse dos radiodifusores que tem impedido a materialização de um projeto de Lei Geral da Comunicação Eletrônica de Massa para regular o setor de forma integrada e coerente, contemplando a revolução digital e a conseqüente convergência tecnológica entre telecomunicações, comunicação de massa e informática.

A mudança nos fusos horários

Não creio, todavia, que o poder dos radiodifusores jamais tenha se manifestado de forma mais contundente e acintosa do que na recente aprovação do projeto do senador Tião Viana (PT-AC), apenas quatro dias após a entrada em vigor da Portaria 1.220/07 determinando que as emissoras de TV adaptem suas transmissões aos diferentes fusos horários do país em função da Classificação Indicativa. Note-se que, por pressão dos radiodifusores, houve cinco adiamentos da data para a entrada em vigor da portaria no período de 9 meses.

Quando se convenceram que não seria mais possível alterar a própria portaria, os radiodifusores passaram a trabalhar pela aprovação do projeto que muda os fusos horários.

O projeto de lei, apresentado em 2006, foi aprovado no Senado no início de 2007 e encaminhado à Câmara dos Deputados. Durante a tramitação na Câmara houve forte pressão da Abert, expressa pela deputada Rebecca Garcia (PP-AM), vinculada à TV Rio Negro Ltda. (afiliada da Rede Bandeirantes), que defendia a existência de um único fuso horário em todo o país. Foi da deputada Elcione Barbalho (PMDB-PA) – esposa do deputado Jader Barbalho (PMDB-PA), ambos vinculados à Rede Brasil Amazônia de Televisão Ltda. (RBA, afiliada da Rede Bandeirantes) – a alteração determinando que o estado do Pará tenha somente um fuso horário (hoje tem dois). Com essa modificação o projeto voltou para o Senado, onde foi novamente aprovado.

A jornalista Laura Mattos, em matéria publicada na Folha de S.Paulo ("Lobby das TVs está por trás da mudança", 15/4) relata que "o lobby [das emissoras de TV] era tão claro que, na segunda passada [7/4], quando a obrigatoriedade de respeito aos fusos entrou em vigor, a Record, questionada pela Folha sobre quais alterações faria, disse aguardar `a tramitação do projeto de lei que iguala o fuso horário do Acre ao do Amazonas´".

Vale ainda registrar que um dos argumentos que têm sido usado pelos defensores da mudança do fuso horário no Congresso – e, de forma velada, pelos próprios radiodifusores – é que a Portaria 1.220/07 impediria a população do Norte de assistir ao vivo os jogos de futebol realizados no Sul do país. Obviamente esse argumento é falso porque a classificação indicativa do futebol é livre e não impede, portanto, sua transmissão ao vivo.

Interesse privado vs. interesse público

O projeto de lei que altera os fusos horários ainda terá que ser sancionado pelo presidente da República, o que o líder do governo no Senado garante acontecerá nos próximos dias.

Será que o interesse dos radiodifusores privados sempre coincide com o interesse público e, portanto, não há qualquer problema que prevaleça?

Será que é assim mesmo que funciona nas democracias: os grupos que reúnem mais força política devem sempre decidir o rumo das políticas públicas?

Ou será que a anedota "no Brasil, a televisão não é uma concessão do Estado, o Estado que é uma concessão da televisão" tem um fundo de verdade?

Ou será que o interesse público, mais uma vez, deixará de ser atendido para que prevaleçam os interesses privados dos radiodifusores, concessionários do serviço público de rádio e televisão?

terça-feira, 22 de abril de 2008

O inconfidente do futebol

Por EUDES JUNIOR*


21 de abril. Feriado nacional. Dia de herói. Do culto à memória em um país que, tantas vezes, insiste em esquecer os seus.

Herói mineiro. A torcida era pela sobrevivência, mas como sempre há uma data para o adeus, Telê Santana não poderia ter partido em outra tão simbólica. Como Tiradentes na luta pela independência. Como Tancredo Neves, no período da redemocratização.

21 de abril de 2006. Sexta-feira. Véspera de mais uma rodada do Brasileirão, o campeonato que Telê foi o primeiro a levantar. O maior título da história do Atlético. Aliás, ninguém comandou o alvinegro de Minas tantas vezes quanto ele: foram 434 partidas e mais de 270 vitórias.

Primeiro, maior, único. A carreira de Telê pode ser descrita em superlativos. Exatamente como a sua vida. À imagem e semelhança do homem que dedicou seu tempo e ofereceu a própria saúde para dar dignidade e alegria à grande paixão dos brasileiros.

Se for verdade que os números não mentem, talvez eles possam comprovar a tese de que Telê, no banco, foi incomparável. Montou times inesquecíveis, como a mágica seleção que perdeu a Copa de 82, mas conquistou o mundo para sempre. Fabricou craques, como Cafu, o lateral e capitão do penta que era meio-campo e não sabia cruzar. Como Raí, destinado a ser apenas o irmão de Sócrates e que se transformou no segundo doutor da bola de uma família iluminada. Capitão do São Paulo de Telê bicampeão da América e do mundo, no melhor momento da história tricolor.

Outro tricolor, bem antes, arrebatou o coração de Telê. Pelo Fluminense, clube que aprendeu a amar e para o qual torcia, o mineiro mais famoso da simpática Itabirito, disputou 522 jogos, marcou 151 gols, ganhou 2 títulos estaduais (50, 59) e, por duas vezes, o Torneio Rio-São Paulo (57, 60). Foi o primeiro ponta a recuar para buscar jogo e ajudar na marcação. Já era moderno na agora distante década de 50. É titular da seleção de todos os tempos daquelas "três cores que traduzem tradição".

Foi a tradição do futebol brasileiro que Telê respeitou e honrou. Não aceitava chutões na bola, muito menos no adversário, qualquer que fosse. O único a exigir tamanha lealdade e espírito esportivo, no testemunho de Zico, o 10 de Telê. Telê que era capaz de perder jogos e títulos, mas nunca a dignidade e a vontade inigualáveis de dar ao público o verdadeiro espetáculo.

Rígido em seus valores, firme em seus propósitos, atacou os cartolas corruptos, os maus árbitros, os gramados ruins, as filas pra comprar ingressos, os banheiros sujos, falta de estacionamentos e perigos dos estádios. Com seus times no ataque, o tempo todo, Telê defendeu com primazia e convicção o futebol-arte que tanto admirava e promovia. E que levou, e o levou, aos 4 cantos do mundo. Que fez dele o primeiro e único, até hoje, a conquistar os campeonatos estaduais dos 4 principais centros do futebol brasileiro: o carioca de 69 com o Fluminense, o mineiro de 70 e 88 com o Atlético, o gaúcho de 77 com o Grêmio e o paulista com o São Paulo, em 91 e 92.

Cansado das falcatruas, da falta de um calendário, das disputas viris, do combate ao talento e das armações de um meio tão fascinante quanto ingrato, Telê adoeceu. Talvez de tristeza, talvez de decepção. E, certamente, por nunca trair seus princípios éticos. A retidão de seu caráter o colocou em outro patamar: o de um homem que costumava estar sempre do lado certo. Das coisas certas, das causas justas.

Quis e não pôde formar e treinar times até o fim da vida. Quis e não pôde assistir aos jogos dos seus times da arquibancada, como o torcedor que tanto prezou até o fim da vida. Até o fim. Expressão que Telê se viu obrigado a enfrentar, até o fim. A fama de ranzinza, de teimoso e de pão-duro do homem que dava valor a cada centavo seu e dos outros. Dos clubes e das torcidas, como poucos dirigentes e jogadores são capazes de fazer. Do homem que persistia no desejo de ver dribles e gols.

Na tabela da habilidade com a ousadia, Telê ainda está à frente do tempo que era seu e que não deveria ter acabado tão cedo. Azarados somos nós, Telê, que ficamos na mesmice da mediocridade sem você. Obrigados a ver os piores momentos no intervalo porque os melhores não prevalecem nem são tão bons. Ai de nós, Telê, que suportamos nossos gênios na Europa ou nos limitamos a viver de arquivo, de videoteipe. Na nossa lembrança você é gol na certa, um fio de esperança, esbelto e decisivo a fazer barulho na rede e nas arquibancadas. Um fio de esperança que, até o fim, enfrentou corajosamente a doença e que morreu como sempre viveu: sem medo de perder, em busca de mais uma vitória, de um sorriso que fosse coletivo. Que significasse a vantagem do talento sobre um resultado a qualquer preço, a supremacia da competência sobre a força, do esporte sobre o negócio.

21 de abril de 2006. Nesse dia, em Belo Horizonte, veio a notícia que ninguém queria dar nem ouvir. Na capital do estado que levanta a voz e a bandeira da liberdade preconizada pelos ideais de homens que, ainda que tarde, venceram e convenceram. Como seus times em campo e você na vida e, até o fim, também na morte.

Com a mesma emoção, com a mesma valentia, com a mesma sabedoria. A sabedoria de um homem que virou mestre. Na arte de viver, na missão de conviver com a vitória e com a derrota, com a glória e o fracasso.

Como um fio de esperança para milhões de apaixonados que, por sua causa, puderam cantar a alegria de chegar lá. Puderam gritar, confiantes e felizes, a palavra que tão bem define o jogador, o técnico, o homem, o mito Telê Santana: campeão.

Na finitude da vida, nossa única certeza, você tornou-se eterno, após um minuto de silêncio repetido dezenas de vezes e aplausos intermináveis. Na memória de um povo e de um esporte que caminham de mãos dadas, você é imortal. Como o grande campeão que sempre foi. Como mineiro heróico e militante. O Inconfidente do Futebol.


*Eudes Junior é jornalista.

POSTADO DO BLOG DO JUCA

http://blogdojuca.blog.uol.com.br