Fidel Castro Ruz
Se for feita uma estatística sobre o número de instalações, campos esportivos e equipamentos sofisticados por milhão de habitantes que acabamos de ver nos últimos Jogos Olímpicos: piscinas de natação, de saltos de pólo aquático; solos artificiais para disputas de campo e pista, hóquei sobre grama; instalações para basquete, para voleibol; de águas rápidas para caiaque; pistas para bicicletas de velocidade, polígonos de tiro, etc., etc., poderia se afirmar que não estão ao alcance de 80% dos países representados em Beijing, o equivalente a milhares de milhões de pessoas que habitam o planeta. A China, imenso e milenário país com mais de 1 bilhão e 200 milhões de habitantes, investiu 40 bilhões de dólares nas instalações olímpicas e ainda precisará de tempo para satisfazer as necessidades esportivas de uma sociedade em pleno desenvolvimento.
Se forem somadas as pessoas que habitam Índia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão, Vietnã, Filipinas e outros, sem contar os quase 900 milhões de africanos e mais de 550 milhões de latino-americanos, será possível ter uma idéia das pessoas que no mundo carecem de tais instalações esportivas.
É à luz destas realidades que devemos analisar as notícias que giraram em torno dos Jogos Olímpicos de Beijing.
O mundo desfrutava da Olimpíada porque dela precisávamos, porque desejávamos ver os sorrisos e as emoções dos atletas participantes, e em especial dos primeiros lugares, que recebiam o prêmio por seu empenho e disciplina.
A qual deles poderia se culpar das colossais desigualdades do planeta em que nos tocou viver? Como esquecer, por outro lado, a fome, a subnutrição, a ausência de escolas e professores, hospitais, médicos, medicamentos e meios elementares de vida que padece o mundo!
Sabemos o que evidentemente desejam aqueles que saqueiam e exploram o planeta que habitamos. Por que desataram a violência e agravaram os perigos de guerra no mesmo dia que se iniciaram os Jogos Olímpicos? Estes acabam de decorrer em apenas 16 dias.
Agora, quando já passou o efeito da anestesia, o mundo volta aos seus angustiosos e crescentes problemas.
Dias atrás escrevi sobre nosso esporte. Vinha denunciando há muito tempo as repugnantes ações mercenárias contra essa atividade revolucionária e em defesa do valor e da honra dos nossos atletas.
Enquanto aconteciam as competições, meditava sobre estas questões. Talvez não teria tomado tão rápido a decisão de escrever algo sobre o tema se não tivesse acontecido o incidente do atleta cubano de taekwondo, Ángel Valodia Matos -campeão olímpico há 8 anos em Sidney- cuja mãe morreu quando competia e ganhava a medalha de ouro a 20 mil quilômetros de sua pátria. Assombrado por uma decisão que lhe pareceu totalmente injusta, protestou e lançou um chute contra o árbitro. Haviam tentado comprar ao seu próprio treinador, estava pré-disposto e indignado. Não pôde se conter.
O atleta costumava enfrentar valentemente as lesões que costumam ser freqüentes no taekwondo. O árbitro suspendeu o combate quando estava ganhando de três a dois. Não foi o único caso. É muito grande o poder do árbitro nesse tipo de disputa e nenhum o dos atletas. Aos dois cubanos, taekwondoca e treinador, ficou proibida a participação por toda a vida em competições internacionais.
Vi quando os juízes roubaram descaradamente as brigas de dois boxeadores cubanos nas semi-finais. Os nossos combateram com dignidade e valentia; atacavam constantemente. Tinham esperanças de ganhar, apesar dos juízes; mas foi inútil: estavam condenados de antemão. Não vi a de Correa, a qual também arrebataram.
Não estou obrigado a guardar silêncio com a máfia. Esta faz arranjos para corromper as regras do Comitê Olímpico. Foi criminoso o que fizeram com os jovens de nossa equipe de boxe para complementar o trabalho dos que se dedicam a roubar atletas do Terceiro Mundo. Em seu enfurecimento, deixaram Cuba sem uma só medalha de ouro olímpica nessa modalidade.
Cuba jamais comprou um atleta ou um árbitro. Há esportes onde a arbitragem está muito corrompida e nossos atletas lutam contra o adversário e o árbitro. Antes o boxe cubano, reconhecido internacionalmente por seu prestígio, teve que enfrentar as tentativas de suborno e corrupção para arrancar à dentadas as medalhas de ouro para o país comprando boxeadores altamente treinados e curtidos, como fazem com jogadores de beisebol ou outros destacados esportistas.
Os atletas cubanos que competiram em Pequim em vez de ouro trouxeram prata, bronze ou um lugar destacado nas competições, têm um enorme mérito como representantes do esporte amador que deu origem ao ressurgimento do movimento olímpico. São exemplos insuperáveis no mundo.
Com que dignidade competiram!
O profissionalismo foi introduzido nas Olimpíadas por interesses comerciais, que transformaram o esporte e os esportistas, como dissemos, em simples mercadorias.
Foi exemplar a conduta da equipe olímpica de Cuba no besisebol. Duas vezes derrotaram em Pequim a seleção dos Estados Unidos, o país que inventou esse esporte que por interesses das grandes empresas comerciais foi expulso das Olimpíadas. Em 2008 foi por hora seu último ano de participação olímpica.
A partida final com a Coréia do Sul foi considerada como a mais tensa e extraordinária que já aconteceu em uma Olimpíada. Foi decidida no último inning com três cubanos em base e um out.
Os jogadores profissionais adversários eram como máquinas projetadas para rebater; seu pitcher, um canhoto de velocidade, bolas variadas e precisão exata. Tratava-se de uma excelente equipe. Os cubanos não praticam o esporte como profissão lucrativa; são educados, como todos nossos atletas, para servir ao seu país. Se não for assim, a Pátria, pequena em tamanho e com limitados recursos, os perderia para sempre. Não é possível calcular sequer o valor dos serviços recreativos e educativos que ao longo de sua vida prestam à nação, em todas as províncias e na Ilha da Juventude.
No voleibol, a equipe derrotou a seleção norte-americana na fase eliminatória, vindo em ascensão do último da parte baixa de uma escada para mais de 50 degraus. Uma façanha que, ainda que regressem sem medalhas, passará à história.
Mijaín ganhou com orgulho, em difícil prova com um rival russo, a primeira medalha de ouro para Cuba.
Dayron Robles ganhou o ouro com ampla margem. A chuva ensopou a pista em chamas. Sem a umidade que ainda restava, teria podido quebrar facilmente o recorde olímpico, além do mundial que tinha imposto semanas antes no difícil e milimétrico evento dos 110 metros com barreiras. É um atleta disciplinado e tenaz com 21 anos e nervos de aço.
Yoanka González ganhou a primeira medalha cubana de ciclismo em uma Olimpíada.
Leonel Suárez, que obteve em decatlo medalha de bronze, completará 21 anos em setembro. Os resultados atingidos em cada um dos dez eventos de seu quase inacessível esporte impressionam.
São tantos os atletas com grandes méritos, homens e mulheres, que não pode ser enumerado aqui, mas que é impossível esquecê-los.
Mais de 150 atletas de nossa pequena ilha participaram na Olimpíada de 2008 e batalharam em 16 dos 28 esportes que ali se competiu.
Nosso país não pratica o chauvinismo nem comercializa com o esporte, que é tão sagrado como a educação e a saúde do povo; pratica, em troca, a solidariedade. Há anos criou uma Escola Formadora de Professores de Educação Física e Esportes, com capacidade para mais de 1.500 alunos do Terceiro Mundo. Com esse mesmo espírito solidário celebra o triunfo dos velocistas jamaicanos, que obtiveram 6 medalhas de ouro; do saltador panamenho com ouro; do boxeador dominicano com igual título, ou o das jogadoras de vôlei brasileiras que venceram avassaladoramente à equipe dos Estados Unidos e ganharam a liderança.
Por outro lado, milhares de instrutores esportivos cubanos cooperaram com países do Terceiro Mundo.
Estes méritos de nosso esporte não nos eximem nem um pouco de responsabilidades presentes e futuras. Nas disputas esportivas mundiais, pelas causas assinaladas, produziu-se um salto de nível. Não vivemos hoje as mesmas circunstâncias da época em que chegamos a ocupar relativamente cedo o primeiro lugar do mundo em medalhas de ouro por habitante, e claro que isso não voltará a se repetir.
Constituímos ao redor de 0,07% da população mundial. Não podemos ser fortes em todos os esportes como os Estados Unidos, que possui pelo menos 30 vezes mais população. Nunca poderíamos dispor nem de 1% das instalações e equipes de diversa natureza, nem dos climas variados de que eles dispõem. Outro tanto ocorre com o resto do mundo rico, que possui pelo menos duas vezes o número de habitantes dos Estados Unidos. Esses países somam ao redor de bilhões.
O fato de que participem mais nações e as disputas sejam mais duras é em parte uma vitória do exemplo de Cuba. Mas dormimos sobre os loureiros. Sejamos honestos e reconheçamos todos. Não importa o que digam nossos inimigos. Sejamos sérios. Revisemos a cada modalidade, cada recurso humano e material que dedicamos ao esporte. Devemos ser profundos nas análises, aplicar novas idéias, conceitos e conhecimentos. Distinguir entre o que se faz pela saúde dos cidadãos e o que se faz pela necessidade de competir e divulgar este instrumento de bem-estar e de saúde. Podemos não competir fora do país e o mundo não se acabaria por isso. Penso que o melhor é competir dentro e fora, enfrentarmos todas as dificuldades e fazermos um uso melhor de todos os recursos humanos e materiais disponíveis.
Preparemos-nos para importantes batalhas futuras. Não nos deixemos bajular pelos sorrisos de Londres. Ali terá chauvinismo europeu, corrupção arbitral, compra de músculos e cérebros, custo impagável e uma forte dose de racismo.
Nem sequer sonhar que Londres atingirá o grau de segurança, disciplina e entusiasmo que conseguiu Pequim. Uma coisa é certa: terá um governo conservador e talvez menos belicoso que o atual.
Não esqueçamos a honradez, honestidade e prestígio profissional de que gozam nossos árbitros internacionais e os cooperantes esportivos.
Para nosso atleta de taekwondo e seu treinador, nossa total solidariedade. Para os que regressam hoje, o aplauso de todo o povo.
Recebamos aos nossos esportistas olímpicos em todos os cantos do país. Ressaltemos sua dignidade e seus méritos. Façamos por eles o que esteja ao nosso alcance.
Para a honra, Medalha de Ouro!
Fidel Castro Ruz, Havana, 24 de agosto de 2008, 21h05
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
domingo, 10 de agosto de 2008
Os Jogos da hipocrisia
Não é de hoje que o Movimento Olímpico perdeu seu idealismo. Mas Pequim passa de todos os limites
"POR QUE você não foi para Pequim?", perguntam.
"Porque não quis", respondo. Mais: estou entrando em férias e só volto aqui no dia 21.
Claro que verei a Olimpíada e até comentarei no blog, mas ando cheio de tanta hipocrisia, a começar pela caça aos que são pegos no antidoping por hábitos que só fazem mal e pioram o rendimento.
Não aceito ver essa cartolagem imunda da família olímpica no papel de fiscal dos hábitos da juventude e, ainda por cima, expondo jovens à execração pública, como acabam de fazer com um jogador do handebol brasileiro.
Como não suporto o ufanismo da maior parte das narrações, com as exceções de praxe para os felizardos que podem assinar um canal de televisão fechada, razão pela qual darei uma fugidinha do país para acompanhar Pequim de uma cidadezinha colonial mexicana apaixonante chamada Guanajuato.
Porque passa do limite ver um Carlos Nuzman fazer quase o elogio da poluição ou se jactar pela maior delegação brasileira da história, quando só 12% de nossa rede escolar tem quadras de esporte.
Aliás, quanto mais medalhas o Brasil ganhar, mais ficará demonstrado o desvio de sua não-política esportiva, porque privilegia o alto rendimento em vez da inclusão social ou a saúde pública por meio da prática de esportes.
Dá engulhos ver a cartolagem em hotéis de até sete estrelas enchendo a boca para dizer que esporte e política não se misturam, quando nada foi mais político do que escolher Pequim para receber os Jogos, cidade que, além de poluída, é uma capital que se notabiliza por cercear direitos básicos da cidadania.
Tudo por dinheiro, tão simples assim. Porque a China talvez seja o melhor exemplo, com todas as suas contradições, de como ainda não se achou um sistema razoável, tão óbvias são as mazelas do comunismo e do capitalismo reais.
É claro que verei tudo, é claro que me emocionarei com as vitórias brasileiras, como com a festa de abertura. É evidente que torcerei para que aconteçam triunfos como nunca, porque tenho a surpreendente capacidade (surpreende a mim mesmo, diga-se) de voltar a ser criança a cada competição em seu apito inicial. E não é de hoje.
Faço assim com os jogos de futebol lá se vão bem uns 26 anos, depois que se revelou a existência da chamada "Máfia da Loteria Esportiva". Porque paixão é paixão e não se explica, não se racionaliza, se sente. E se curte.
Sim, eu sei que serei capaz de me comover às lágrimas até com a superação de um atleta que não seja conterrâneo, como já me aconteceu inúmeras vezes.
Mas é preciso que se diga que mais que em Atlanta, quando os Jogos Olímpicos modernos comemoraram cem anos e a Coca-Cola alijou Atenas de recebê-los num crime contra a história, esta edição chinesa é um soco em quem associa o esporte à saúde e à liberdade.
Lamento sentir assim, mas quem viveu a inesquecível festa de Barcelona-1992, cujos equipamentos até hoje são utilizados por quem os pagou, os catalães, além da hospitalidade que recebeu o mundo tão bem, não pode engolir Pequim-2008.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk1008200808.htm
Autor: Juca Kfouri
"POR QUE você não foi para Pequim?", perguntam.
"Porque não quis", respondo. Mais: estou entrando em férias e só volto aqui no dia 21.
Claro que verei a Olimpíada e até comentarei no blog, mas ando cheio de tanta hipocrisia, a começar pela caça aos que são pegos no antidoping por hábitos que só fazem mal e pioram o rendimento.
Não aceito ver essa cartolagem imunda da família olímpica no papel de fiscal dos hábitos da juventude e, ainda por cima, expondo jovens à execração pública, como acabam de fazer com um jogador do handebol brasileiro.
Como não suporto o ufanismo da maior parte das narrações, com as exceções de praxe para os felizardos que podem assinar um canal de televisão fechada, razão pela qual darei uma fugidinha do país para acompanhar Pequim de uma cidadezinha colonial mexicana apaixonante chamada Guanajuato.
Porque passa do limite ver um Carlos Nuzman fazer quase o elogio da poluição ou se jactar pela maior delegação brasileira da história, quando só 12% de nossa rede escolar tem quadras de esporte.
Aliás, quanto mais medalhas o Brasil ganhar, mais ficará demonstrado o desvio de sua não-política esportiva, porque privilegia o alto rendimento em vez da inclusão social ou a saúde pública por meio da prática de esportes.
Dá engulhos ver a cartolagem em hotéis de até sete estrelas enchendo a boca para dizer que esporte e política não se misturam, quando nada foi mais político do que escolher Pequim para receber os Jogos, cidade que, além de poluída, é uma capital que se notabiliza por cercear direitos básicos da cidadania.
Tudo por dinheiro, tão simples assim. Porque a China talvez seja o melhor exemplo, com todas as suas contradições, de como ainda não se achou um sistema razoável, tão óbvias são as mazelas do comunismo e do capitalismo reais.
É claro que verei tudo, é claro que me emocionarei com as vitórias brasileiras, como com a festa de abertura. É evidente que torcerei para que aconteçam triunfos como nunca, porque tenho a surpreendente capacidade (surpreende a mim mesmo, diga-se) de voltar a ser criança a cada competição em seu apito inicial. E não é de hoje.
Faço assim com os jogos de futebol lá se vão bem uns 26 anos, depois que se revelou a existência da chamada "Máfia da Loteria Esportiva". Porque paixão é paixão e não se explica, não se racionaliza, se sente. E se curte.
Sim, eu sei que serei capaz de me comover às lágrimas até com a superação de um atleta que não seja conterrâneo, como já me aconteceu inúmeras vezes.
Mas é preciso que se diga que mais que em Atlanta, quando os Jogos Olímpicos modernos comemoraram cem anos e a Coca-Cola alijou Atenas de recebê-los num crime contra a história, esta edição chinesa é um soco em quem associa o esporte à saúde e à liberdade.
Lamento sentir assim, mas quem viveu a inesquecível festa de Barcelona-1992, cujos equipamentos até hoje são utilizados por quem os pagou, os catalães, além da hospitalidade que recebeu o mundo tão bem, não pode engolir Pequim-2008.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk1008200808.htm
Autor: Juca Kfouri
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Curso Livre Marx e Engels
Marx morreu? Então, viva Marx!!! O primeiro curso Marx e Engels promovido pela Boitempo teve uma procura tão inesperada como alvissareira. Mais de 2.000 (duas mil pessoas) procuraram o curso. Outras tantas (incluindo eu), ficaram com vontade de fazer, mas impedidas pelas condições geográficas (e, financeira, diga-se de passagem).
Há uma imensa luz no fim do túnel e, com certeza, não é a de um grande vaga-lume!!!
Abaixo, informe sobre o próximo curso.
Clique na imagem para ampliá-la.
Há uma imensa luz no fim do túnel e, com certeza, não é a de um grande vaga-lume!!!
Abaixo, informe sobre o próximo curso.
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quinta-feira, 24 de julho de 2008
Luta de classes

A imagem acima é de autoria do cartunista Latuff e gerou a maior polêmica na cidade do Rio de Janeiro.
Latuff também falou sobre as reações:
“O desenho tem a mãe desesperada, berrando. O filho dela, uma criança, com uniforme de escola, baleada, morta. Ela estava indo ou vindo da escola. Provavelmente, como a imagem é de noite, estava voltando da escola. Mas isso não sensibilizou a maioria das pessoas. A reação a este desenho é didática e serve de alerta. Ninguém se comoveu com o assassinato da criança. As pessoas se incomodaram mais com a descrição do policial. Isso porque as instituições da repressão são sacrossantas, não podem ser maculadas. Independentemente de elas já estarem maculadas, comprometidas”.
Para Latuff, isto resulta da velha luta de classes:
“Dizem que caiu o muro, que não tem mais luta de classes... Sinto dizer, mas isso é uma questão de classe. O cara do asfalto não reconhece o da favela como um igual; é o outro, é o favelado. Por isso uma vez um policial me disse: “Quando a gente prende alguém, as pessoas não gritam ‘solta, solta’. Elas gritam ‘mata, mata’”.
“É irônico. Esses jornais não acham a realidade polêmica, mas sim o desenho que a retrata. Para eles, não é a política de segurança que é polêmica, mas o desenho. Para O Globo e a imprensa de modo geral não existe polêmica quando a polícia entra na favela e mata 30. A polêmica é quando vem o desenho. É curioso como uma charge pode ser mais polêmica que a própria realidade... O fato é que aquele desenho não tem ficção. Aquilo não é nenhuma ficção da minha cabeça. Qualquer cidadão do Rio de Janeiro entende aquela imagem. Nem precisava de texto. Ela é quase uma fotografia, uma representação fiel da realidade. E cumpre função inglória: de esfregar a realidade na cara das pessoas”.
Fragmentos retirados do site http://www.fazendomedia.com/diaadia/protoblog.htm
terça-feira, 22 de julho de 2008
Estados Unidos promovem carnificina
Sobreviventes da Guerra da Coréia descrevem carnificina promovida pelos Estados Unidos
Choe Sang-Hun
Na Ilha Wolmi, na Coréia do Sul
Quando as tropas dos Estados Unidos invadiram esta ilha mais de um século atrás, ela estava repleta de trincheiras e ninhos de metralhadora comunistas. Agora a ilha é um parque no qual as crianças brincam e os aposentados caminham ao longo de uma esplanada sombreada pelas árvores.
Do alto de uma colina, do outro lado de um canal estreito, o general Douglas MacArthur, imortalizado em uma estátua de bronze, olha para as praias em Incheon nas quais as suas tropas desembarcaram em setembro de 1950, mudando o curso da Guerra da Coréia e transformando-o em um herói nesta região. No porto abaixo, carros estacionados em filas, reluzindo ao sol, aguardam para serem transportados para todo o mundo - uma demonstração da força econômica da Coréia de Sul e uma indicação de qual lado acabou emergindo vitorioso no conflito que terminou há 55 anos.
Mas no interior de uma tenda velha na entrada do Parque Wolmi, um grupo de sul-coreanos idosos quer revelar ao mundo um aspecto oculto do triunfo militar dos Estados Unidos. Uma história de carnificina incendiária que não é mencionada nos livros oficiais de história da Coréia do Sul.
"Quando o napalm atingiu a nossa vila, muitas pessoas ainda dormiam nas suas casas", conta Lee Beom Ki, 76. "Aqueles que sobreviveram às chamas correram para os baixios na costa. Nós tentávamos mostrar aos pilotos norte-americanos que éramos civis. Mas eles nos bombardearam; mulheres e crianças".
Em 10 de setembro de 1950, cinco dias antes do desembarque das tropas em Incheon, 43 aviões de combate norte-americanos sobrevoaram Wolmi, despejando 93 tanques de napalm para "queimar" as elevações orientais da ilha, segundo documentos das forças armadas dos Estados Unidos que recentemente foram analisados por investigadores do governo sul-coreanos, após a classificação de sigilo dos papéis ter expirado.
Mas Wolmi não foi o único alvo. Em novembro deste ano a Comissão para Reconciliação e Verdade do governo sul-coreano começará a divulgar uma série de relatórios sobre Wolmi e dois outros locais onde, segundo os moradores, uma grande quantidade de civis desarmados foi morta em bombardeios indiscriminados feitos pelos Estados Unidos. Classificando os ataques de violações das convenções internacionais da guerra, a comissão recomendou que o governo negociasse com os Estados Unidos para que as vítimas sejam indenizadas.
O governo não divulgou os seus planos, e a comissão, criada em 2005 para examinar questões pendentes na história sul-coreana, dá continuidade às suas investigações.
Segundo as outras descobertas feitas pela comissão, em 19 de janeiro de 1951 pelo menos 51 moradores, incluindo 16 crianças, foram mortos quando aviões dos Estados Unidos bombardearam com napalm a vila de Sansong, que fica 160 quilômetros ao sudeste de Seul.
Segundo a comissão, um dia depois disso pelo menos 167 moradores, mais da metade mulheres, foram mortos por queimaduras ou asfixia em Tanyang, 35 quilômetros ao norte de Sansong, quando aviões norte-americanos despejaram napalm na entrada de uma caverna cheia de refugiados.
"Não devemos ignorar ou ocultar as mortes de civis desarmados que foram causadas por um bombardeio aéreo sistemático, e não pelos erros de um punhado de soldados", afirma Kim Dong, um membro da comissão. "A História nos ensina que precisamos de uma aliança, mas esta aliança tem que se basear em princípios humanitários".
Sob os primeiros governos da Coréia do Sul, autoritários e ferrenhamente anti-comunistas, criticar as ações dos Estados Unidos na guerra era um tabu. Mas quando o governo criou a comissão para a apuração dos fatos, os cidadãos denunciaram mais de 210 casos de supostos assassinatos em massa promovidos pelas forças norte-americanas, especialmente por meio de bombardeios aéreos. A exigência de reconhecimento do massacre toca em complicadas emoções subjacentes à aliança da Coréia do Sul com os Estados Unidos.
"Nós somos gratos às tropas norte-americanas por terem salvo o nosso país do comunismo e pela paz e a prosperidade que temos hoje em dia", diz Han In Deuk, diretora do grupo de ativistas de Wolmi. "Mas será que isso significa que temos que nos calar a respeito daquilo que aconteceu com as nossas famílias?".
O major Stewart Upton, um porta-voz do Departamento de Defesa em Washington, diz que o Pentágono não fará comentários sobre os relatórios antes que haja uma ação formal por parte do governo sul-coreano.
Os ataques aéreos ocorreram durante uma época de desespero para as forças dos Estados Unidos, e também para os sul-coreanos que aquelas forças vieram defender.
A guerra irrompeu em junho de 1950 com uma invasão comunista a partir do norte. Em setembro, quando as forças armadas norte-americanas planejaram o desembarque em Incheon, para ajudar as forças da Organização das Nações Unidas (ONU) que encontravam-se encurraladas no extremo sudeste da península, decidiu-se que primeiro seria necessário neutralizar Wolmi, que fica no canal que dá acesso ao porto.
"A missão consistia em saturar tão intensamente a área com napalm que todas as instalações no local fossem incineradas", disseram pilotos do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos em um dos seus relatórios sobre a missão em Wolmi obtidos pela comissão junto aos Arquivos e Registros Nacionais do governo dos Estados Unidos.
Eles relataram ainda: "Não vimos nenhum soldado, mas os clarões observados no solo indicaram que o nosso bombardeio foi suficientemente intenso e preciso para destruir qualquer instalação inimiga".
Os relatórios descrevem bombardeios na praia, mas não mencionam baixas civis.
O desembarque em Incheon ajudou as tropas da ONU a recapturar Seul e rechaçar os norte-coreanos. Mas a tendência reverteu-se quando os chineses entraram na guerra.
Em janeiro de 1951, os soldados dos Estados Unidos lutavam contra forças comunistas que movimentavam-se rapidamente na região central da Coréia do Sul, perto de Tanyang e Sansong. Eles também foram atacados por guerrilheiros que eram difíceis de distinguir dos refugiados.
Temendo uma infiltração inimiga, as tropas dos Estados Unidos detiveram as colunas de refugiados que seguiam para o sul pelas estradas e ordenaram a eles que retornassem às suas casas ou ficassem nas montanhas, caso contrário poderiam ser mortos a tiros pelas tropas aliadas. Em 14 de janeiro, a 10ª Corporação, do general Edward Almond, ordenou "a destruição metódica de habitações e outras construções próximas à linha de frente, que são, ou poderiam ser, utilizadas como abrigo pelo inimigo". Na ordem havia a recomendação de que fossem efetuados bombardeios aéreos.
"Excelentes resultados", foi como os pilotos norte-americanos resumiram os bombardeios contra Sansong em 19 de janeiro de 1951.
No entanto, naquele mesmo dia, um dos subordinados de Almond, o general David Barr, da 7ª Divisão de Infantaria, escreveu a Almond afirmando que "incinerar metodicamente agricultores pobres quando não há nenhum inimigo presente é algo que vai contra a mentalidade dos soldados norte-americanos". No dia seguinte, segundo os sobreviventes de Tanyang, a caverna na qual os refugiados buscaram abrigo ressoava com os gritos dos moribundos.
"Quando o napalm atingiu a entrada, a concussão e a fumaça destruíram as lamparinas de querosene ou óleo de castor que havia na caverna. Foi um caos em uma escuridão completa - as pessoas chamavam umas pelas outras aos gritos, pisoteando e sufocando", disse em uma entrevista Eom Han Won, que na época tinha 15 anos. "Alguns disseram que deveríamos rastejar para as profundezas da caverna, cobrindo as faces com um pano molhado. Outros afirmavam que tínhamos que sair correndo da caverna, passando pelas chamas. Os que não foram queimados morreram asfixiados".
De acordo com os sobreviventes, assim como a família de Eom, as pessoas eram em sua maioria refugiados que foram obrigados pelos norte-americanos a retroceder em um bloqueio na estrada ao sul de Tanyang. No dias que antecederam o ataque, a caverna estava cheia de famílias. Quando os aviões dos Estados Unidos surgiram no sudoeste, as crianças brincavam do lado de fora em meio ao gado e às bagagens.
Naquele dia, de acordo com os relatórios de operações da 7ª Divisão, 13 aviões atacaram "tropas inimigas, animais de manada e uma caverna". Segundo o relatório houve "muitas baixas e todos os animais foram mortos".
Eom, que saiu correndo da caverna em meio ao fogo intenso das metralhadoras dos aviões, mas que sobreviveu, disse: "Os norte-americanos nos empurraram para a área inimiga e a seguir nos bombardearam".
Eom perdeu dez familiares na caverna.
Depois que a 2ª Divisão da Coréia do Sul relatou que 34 civis foram mortos e que 72 ficaram feridos em Sansong - sem que houvesse "baixas entre o inimigo" - as forças armadas dos Estados Unidos deram início a uma investigação.
Os investigadores norte-americanos não questionaram o relato dos sul-coreanos, mas concluíram que os bombardeios aéreos foram "plenamente justificados". Eles afirmaram que Sansong era considerada um reduto inimigo e que os seus moradores foram alertados para evacuar o local.
O caso parecia ter sido encerrado até alguns anos atrás, quando, no curso de uma investigação em uma reportagem, os moradores viram os relatórios feitos na época pelas forças armadas dos Estados Unidos, e leram que tinham sido avisados para que evacuassem a vila. Eles insistem - e a comissão concorda - que isso é mentira. Segundo eles, a vila na qual se encontravam as tropas norte-coreanas ficava em outro lugar e jamais foi bombardeada.
Em relação ao ataque contra Wolmi, a comissão anunciou que, embora reconheça que havia a necessidade de um desembarque em Incheon, "não existe nenhuma evidência de esforços para limitar as baixas civis".
Os sobreviventes de Wolmi dizem que as habitações dos oficiais norte-coreanos ficavam a 300 metros da vila. Segundo eles, os pilotos norte-americanos, cujos relatórios de missão atestam que havia "visibilidade ilimitada" e que atacaram em vôos baixos, em algumas ocasiões a apenas 30 metros do solo, não poderiam ter confundido os moradores, incluindo mulheres e crianças, com o inimigo.
Segundo eles, dezenas de moradores foram mortos. O número total de mortos é desconhecido. Os sobreviventes contam que mais tarde as tropas dos Estados Unidos demoliram com tratores a vila incinerada para construir uma base militar.
"Se alguém diz que esses assassinatos não foram deliberados, tendo sido apenas erros, como explicar o fato de que houve uma quantidade tão grande desses incidentes?", questiona Park Myung Lim, um historiador da Universidade Yonsey, em Seul.
As vítimas tiveram a oportunidade de dar vazão à sua mágoa em 2005, quando grupos militantes de esquerda tentaram derrubar a estátua de MacArthur. Mas os sobreviventes de Wolmi contam que não participaram do protesto por temerem ser tachados de anti-americanos.
"Consideramos MacArthur um herói para o nosso país, mas ninguém é capaz de saber o sofrimento enfrentado pelas nossas famílias", diz Chun Ji Eun, um motorista de táxi de Incheon, cujo pai morreu em Wolmi. "Ambos os governos enfatizam a aliança. Mas eles nunca se preocupam com pessoas como nós, que foram sacrificadas em nome desta aliança".
FONTE: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/herald/2008/07/22/ult2680u708.jhtm
Choe Sang-Hun
Na Ilha Wolmi, na Coréia do Sul
Quando as tropas dos Estados Unidos invadiram esta ilha mais de um século atrás, ela estava repleta de trincheiras e ninhos de metralhadora comunistas. Agora a ilha é um parque no qual as crianças brincam e os aposentados caminham ao longo de uma esplanada sombreada pelas árvores.
Do alto de uma colina, do outro lado de um canal estreito, o general Douglas MacArthur, imortalizado em uma estátua de bronze, olha para as praias em Incheon nas quais as suas tropas desembarcaram em setembro de 1950, mudando o curso da Guerra da Coréia e transformando-o em um herói nesta região. No porto abaixo, carros estacionados em filas, reluzindo ao sol, aguardam para serem transportados para todo o mundo - uma demonstração da força econômica da Coréia de Sul e uma indicação de qual lado acabou emergindo vitorioso no conflito que terminou há 55 anos.
Mas no interior de uma tenda velha na entrada do Parque Wolmi, um grupo de sul-coreanos idosos quer revelar ao mundo um aspecto oculto do triunfo militar dos Estados Unidos. Uma história de carnificina incendiária que não é mencionada nos livros oficiais de história da Coréia do Sul.
"Quando o napalm atingiu a nossa vila, muitas pessoas ainda dormiam nas suas casas", conta Lee Beom Ki, 76. "Aqueles que sobreviveram às chamas correram para os baixios na costa. Nós tentávamos mostrar aos pilotos norte-americanos que éramos civis. Mas eles nos bombardearam; mulheres e crianças".
Em 10 de setembro de 1950, cinco dias antes do desembarque das tropas em Incheon, 43 aviões de combate norte-americanos sobrevoaram Wolmi, despejando 93 tanques de napalm para "queimar" as elevações orientais da ilha, segundo documentos das forças armadas dos Estados Unidos que recentemente foram analisados por investigadores do governo sul-coreanos, após a classificação de sigilo dos papéis ter expirado.
Mas Wolmi não foi o único alvo. Em novembro deste ano a Comissão para Reconciliação e Verdade do governo sul-coreano começará a divulgar uma série de relatórios sobre Wolmi e dois outros locais onde, segundo os moradores, uma grande quantidade de civis desarmados foi morta em bombardeios indiscriminados feitos pelos Estados Unidos. Classificando os ataques de violações das convenções internacionais da guerra, a comissão recomendou que o governo negociasse com os Estados Unidos para que as vítimas sejam indenizadas.
O governo não divulgou os seus planos, e a comissão, criada em 2005 para examinar questões pendentes na história sul-coreana, dá continuidade às suas investigações.
Segundo as outras descobertas feitas pela comissão, em 19 de janeiro de 1951 pelo menos 51 moradores, incluindo 16 crianças, foram mortos quando aviões dos Estados Unidos bombardearam com napalm a vila de Sansong, que fica 160 quilômetros ao sudeste de Seul.
Segundo a comissão, um dia depois disso pelo menos 167 moradores, mais da metade mulheres, foram mortos por queimaduras ou asfixia em Tanyang, 35 quilômetros ao norte de Sansong, quando aviões norte-americanos despejaram napalm na entrada de uma caverna cheia de refugiados.
"Não devemos ignorar ou ocultar as mortes de civis desarmados que foram causadas por um bombardeio aéreo sistemático, e não pelos erros de um punhado de soldados", afirma Kim Dong, um membro da comissão. "A História nos ensina que precisamos de uma aliança, mas esta aliança tem que se basear em princípios humanitários".
Sob os primeiros governos da Coréia do Sul, autoritários e ferrenhamente anti-comunistas, criticar as ações dos Estados Unidos na guerra era um tabu. Mas quando o governo criou a comissão para a apuração dos fatos, os cidadãos denunciaram mais de 210 casos de supostos assassinatos em massa promovidos pelas forças norte-americanas, especialmente por meio de bombardeios aéreos. A exigência de reconhecimento do massacre toca em complicadas emoções subjacentes à aliança da Coréia do Sul com os Estados Unidos.
"Nós somos gratos às tropas norte-americanas por terem salvo o nosso país do comunismo e pela paz e a prosperidade que temos hoje em dia", diz Han In Deuk, diretora do grupo de ativistas de Wolmi. "Mas será que isso significa que temos que nos calar a respeito daquilo que aconteceu com as nossas famílias?".
O major Stewart Upton, um porta-voz do Departamento de Defesa em Washington, diz que o Pentágono não fará comentários sobre os relatórios antes que haja uma ação formal por parte do governo sul-coreano.
Os ataques aéreos ocorreram durante uma época de desespero para as forças dos Estados Unidos, e também para os sul-coreanos que aquelas forças vieram defender.
A guerra irrompeu em junho de 1950 com uma invasão comunista a partir do norte. Em setembro, quando as forças armadas norte-americanas planejaram o desembarque em Incheon, para ajudar as forças da Organização das Nações Unidas (ONU) que encontravam-se encurraladas no extremo sudeste da península, decidiu-se que primeiro seria necessário neutralizar Wolmi, que fica no canal que dá acesso ao porto.
"A missão consistia em saturar tão intensamente a área com napalm que todas as instalações no local fossem incineradas", disseram pilotos do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos em um dos seus relatórios sobre a missão em Wolmi obtidos pela comissão junto aos Arquivos e Registros Nacionais do governo dos Estados Unidos.
Eles relataram ainda: "Não vimos nenhum soldado, mas os clarões observados no solo indicaram que o nosso bombardeio foi suficientemente intenso e preciso para destruir qualquer instalação inimiga".
Os relatórios descrevem bombardeios na praia, mas não mencionam baixas civis.
O desembarque em Incheon ajudou as tropas da ONU a recapturar Seul e rechaçar os norte-coreanos. Mas a tendência reverteu-se quando os chineses entraram na guerra.
Em janeiro de 1951, os soldados dos Estados Unidos lutavam contra forças comunistas que movimentavam-se rapidamente na região central da Coréia do Sul, perto de Tanyang e Sansong. Eles também foram atacados por guerrilheiros que eram difíceis de distinguir dos refugiados.
Temendo uma infiltração inimiga, as tropas dos Estados Unidos detiveram as colunas de refugiados que seguiam para o sul pelas estradas e ordenaram a eles que retornassem às suas casas ou ficassem nas montanhas, caso contrário poderiam ser mortos a tiros pelas tropas aliadas. Em 14 de janeiro, a 10ª Corporação, do general Edward Almond, ordenou "a destruição metódica de habitações e outras construções próximas à linha de frente, que são, ou poderiam ser, utilizadas como abrigo pelo inimigo". Na ordem havia a recomendação de que fossem efetuados bombardeios aéreos.
"Excelentes resultados", foi como os pilotos norte-americanos resumiram os bombardeios contra Sansong em 19 de janeiro de 1951.
No entanto, naquele mesmo dia, um dos subordinados de Almond, o general David Barr, da 7ª Divisão de Infantaria, escreveu a Almond afirmando que "incinerar metodicamente agricultores pobres quando não há nenhum inimigo presente é algo que vai contra a mentalidade dos soldados norte-americanos". No dia seguinte, segundo os sobreviventes de Tanyang, a caverna na qual os refugiados buscaram abrigo ressoava com os gritos dos moribundos.
"Quando o napalm atingiu a entrada, a concussão e a fumaça destruíram as lamparinas de querosene ou óleo de castor que havia na caverna. Foi um caos em uma escuridão completa - as pessoas chamavam umas pelas outras aos gritos, pisoteando e sufocando", disse em uma entrevista Eom Han Won, que na época tinha 15 anos. "Alguns disseram que deveríamos rastejar para as profundezas da caverna, cobrindo as faces com um pano molhado. Outros afirmavam que tínhamos que sair correndo da caverna, passando pelas chamas. Os que não foram queimados morreram asfixiados".
De acordo com os sobreviventes, assim como a família de Eom, as pessoas eram em sua maioria refugiados que foram obrigados pelos norte-americanos a retroceder em um bloqueio na estrada ao sul de Tanyang. No dias que antecederam o ataque, a caverna estava cheia de famílias. Quando os aviões dos Estados Unidos surgiram no sudoeste, as crianças brincavam do lado de fora em meio ao gado e às bagagens.
Naquele dia, de acordo com os relatórios de operações da 7ª Divisão, 13 aviões atacaram "tropas inimigas, animais de manada e uma caverna". Segundo o relatório houve "muitas baixas e todos os animais foram mortos".
Eom, que saiu correndo da caverna em meio ao fogo intenso das metralhadoras dos aviões, mas que sobreviveu, disse: "Os norte-americanos nos empurraram para a área inimiga e a seguir nos bombardearam".
Eom perdeu dez familiares na caverna.
Depois que a 2ª Divisão da Coréia do Sul relatou que 34 civis foram mortos e que 72 ficaram feridos em Sansong - sem que houvesse "baixas entre o inimigo" - as forças armadas dos Estados Unidos deram início a uma investigação.
Os investigadores norte-americanos não questionaram o relato dos sul-coreanos, mas concluíram que os bombardeios aéreos foram "plenamente justificados". Eles afirmaram que Sansong era considerada um reduto inimigo e que os seus moradores foram alertados para evacuar o local.
O caso parecia ter sido encerrado até alguns anos atrás, quando, no curso de uma investigação em uma reportagem, os moradores viram os relatórios feitos na época pelas forças armadas dos Estados Unidos, e leram que tinham sido avisados para que evacuassem a vila. Eles insistem - e a comissão concorda - que isso é mentira. Segundo eles, a vila na qual se encontravam as tropas norte-coreanas ficava em outro lugar e jamais foi bombardeada.
Em relação ao ataque contra Wolmi, a comissão anunciou que, embora reconheça que havia a necessidade de um desembarque em Incheon, "não existe nenhuma evidência de esforços para limitar as baixas civis".
Os sobreviventes de Wolmi dizem que as habitações dos oficiais norte-coreanos ficavam a 300 metros da vila. Segundo eles, os pilotos norte-americanos, cujos relatórios de missão atestam que havia "visibilidade ilimitada" e que atacaram em vôos baixos, em algumas ocasiões a apenas 30 metros do solo, não poderiam ter confundido os moradores, incluindo mulheres e crianças, com o inimigo.
Segundo eles, dezenas de moradores foram mortos. O número total de mortos é desconhecido. Os sobreviventes contam que mais tarde as tropas dos Estados Unidos demoliram com tratores a vila incinerada para construir uma base militar.
"Se alguém diz que esses assassinatos não foram deliberados, tendo sido apenas erros, como explicar o fato de que houve uma quantidade tão grande desses incidentes?", questiona Park Myung Lim, um historiador da Universidade Yonsey, em Seul.
As vítimas tiveram a oportunidade de dar vazão à sua mágoa em 2005, quando grupos militantes de esquerda tentaram derrubar a estátua de MacArthur. Mas os sobreviventes de Wolmi contam que não participaram do protesto por temerem ser tachados de anti-americanos.
"Consideramos MacArthur um herói para o nosso país, mas ninguém é capaz de saber o sofrimento enfrentado pelas nossas famílias", diz Chun Ji Eun, um motorista de táxi de Incheon, cujo pai morreu em Wolmi. "Ambos os governos enfatizam a aliança. Mas eles nunca se preocupam com pessoas como nós, que foram sacrificadas em nome desta aliança".
FONTE: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/herald/2008/07/22/ult2680u708.jhtm
sexta-feira, 11 de julho de 2008
MUDANÇA

Querem emudecer a luta pela igualdade
Com a voz da “justiça”
Muito se enganam...
Mal sabem esses senhores – esses, que de tanto pensar em lucro não enxergam a beleza da vida – que buscam a dissolução do insolúvel...
Os caminhos que percorrem não são profícuos
Soterrando a solidariedade, nossa pedagogia e didática
Esquecem, pobres (de tão ricos) senhores
Que é a terra que semeia frutos e flores
E que, quanto mais terra colocarem sobre nós
Mais mudas semearemos
Mudas que não fazem nenhum minuto de silêncio
Que semeiam dança, poemas, cores
E que, cantando,
fazem a mudança no mudo mundo desses senhores.
Isabel Mansur
quarta-feira, 2 de julho de 2008
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