sábado, 3 de janeiro de 2009

Saramago

Gaza
By José Saramago
22/12/2008

A sigla ONU, toda a gente o sabe, significa Organização das Nações Unidas, isto é, à luz da realidade, nada ou muito pouco. Que o digam os palestinos de Gaza a quem se lhes estão esgotando os alimentos, ou que se esgotaram já, porque assim o impôs o bloqueio israelita, decidido, pelos vistos, a condenar à fome as 750 mil pessoas ali registadas como refugiados. Nem pão têm já, a farinha acabou, e o azeite, as lentilhas e o açúcar vão pelo mesmo caminho. Desde o dia 9 de Dezembro os camiões da agência das Nações Unidas, carregados de alimentos, aguardam que o exército israelita lhes permita a entrada na faixa de Gaza, uma autorização uma vez mais negada ou que será retardada até ao último desespero e à última exasperação dos palestinos famintos. Nações Unidas? Unidas? Contando com a cumplicidade ou a cobardia internacional, Israel ri-se de recomendações, decisões e protestos, faz o que entende, quando o entende e como o entende. Vai ao ponto de impedir a entrada de livros e instrumentos musicais como se se tratasse de produtos que iriam pôr em risco a segurança de Israel. Se o ridículo matasse não restaria de pé um único político ou um único soldado israelita, esses especialistas em crueldade, esses doutorados em desprezo que olham o mundo do alto da insolência que é a base da sua educação. Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores. Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente actualizado.

ISRAEL31/12/2008

Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos
venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá
com Israel a "relação especial" que liga os dois países, em
particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à
política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes
(e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra
coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino.
Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e
criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a
aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram
antes sem precisarem de outra justificação que a tal "relação
especial" com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram
tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos
palestinos.

Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência
pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de
um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma
história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco
que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à
terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco,
Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças
navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para
atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas
de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas,
ou as duas em coro, lhe disserem: "Não te canses, papá, já sabemos o
que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime".

José Saramago

FONTE: http://caderno. josesaramago. org/

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