quinta-feira, 19 de junho de 2008

Esporte e Estado

Futebol, tráfico de atletas e conivência do Estado
Dez anos após a aprovação da Lei Pelé, Executivo e Congresso finalmente estudam medidas para coibir a evasão clandestina de jogadores. Mas, influenciadas pela lógica de mercado e pelo desejo de satisfazer os clubes, as propostas em debate podem agravar o problema, ao invés de saná-lo.


Alexandre Machado Rosa

(01/06/2008)

Em março último, sob pressão de denúncias na imprensa, o Congresso Nacional voltou a debater medidas para limitar a transferência ao exterior (muitas vezes sob forma de tráfico) de atletas de futebol. O fenômeno cresce a cada dia, desde a aprovação da Lei 8615/98, a chamada “Lei Pelé”. Acompanhado de dirigentes de clubes, o ministro do Esporte, Orlando Silva, compareceu à Câmara dos Deputados e pediu que sejam acelerados os trâmites para efetivar as mudanças. A intenção é bem-vinda mas o caráter das propostas, não. Governo e Congresso querem, essencialmente, antecipar a idade a partir da qual os jovens jogadores podem vincular-se – assumindo contratos de trabalho de caráter mercantil – com os clubes brasileiros. Neste afã, atenta-se contra o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Seria perfeitamente possível enfrentar o problema de outra maneira — como fazem, aliás, outros países. Para tanto, o Estado precisaria, ao invés de reforçar relações de clientelismo com os clubes e seus “cartolas”, assumir seu papel de criador de mecanismos de proteção social.

Assunto de numerosas matérias jornalísticas, o êxodo intensificou-se desde que a “Lei Pelé” “libertou” os atletas dos vínculos que os atavam às equipes (em especial o chamado “passe”, que precisava ser “comprado” junto ao clube de origem, quando o jogador se transferia para outra) nas transferências interclu). “Livres” para buscar contratos vantajosos, milhares de jovens jogadores são seduzidos pela miragem dos contratos milionários no exterior. Mas a fortuna dos que têm visibilidade na mídia é exceção, como demonstrou a Comissão Parlamentar de Inquérido (CPI) da CBF-Nike, instalada a em 2000. Um dos pontos marcantes da CPI foram os resultados de investigações sobre comércio de atletas brasileiros no futebol mundial. Uma rede de falsificação de passaportes e identidades com idade adulterada acabou emergindo. A Comissão fez recomendações à CBF, à Fifa, às autoridades brasileiras e apresentou proposta sugerindo mudanças na legislação, para prevenir tantos abusos. Os passaportes falsos repercutiram internacionalmente, aumentando o controle em vários países, como a Itália.

A denúncia reforçava os sinais de algo que continua a incomodar a humanidade: o tráfico de seres humanos. Na indústria dos lazeres, nascida e consolidada durante o século vinte, o futebol ganhou uma posição de destaque, mesmo que para isto leis internacionais sejam desrespeitadas. Segundo a Organização Internacional para Migrações (OIM), o tráfico de jogadores menores de idade é um fenômeno que precisa ser controlado. Por isso, um guia sobre formas de prevenir o tráfico de jogadores, com conselhos práticos para jovens, vem sendo distribuído aos clubes na França, para facilitar a integração dos jogadores e informá-los sobre seus direitos.

No Brasil, prossegue o drama. Oito anos depois da CPI, a Folha de S.Paulo fez uma série de reportagens denunciando a exploração de crianças por supostos agentes e clubes em Minas Gerais. Em dezembro de 2007, o jornal publicou matéria sobre a ação do Ministério Público do Trabalho do Estado, que investigou a situação de jovens aspirantes a atletas de futebol em clubes mineiros. Mais tarde, em março deste ano, a polícia civil fechou um alojamento, em Belo Horizonte, com um grupo de 22 jogadores amadores (sendo uma criança, 19 adolescentes e dois jovens de 18 anos). As famílias dos garotos pagavam até R$ 1.500 para que os filhos tivessem a oportunidade de realizar testes em clubes, o que não aconteceu para a maioria. Um agente, sem credenciamento junto à Fifa (Federação Internacional de Futebol Association) ou CBF, foi preso por aliciamente de menores e estelionato. O Conselho Tutelar da Pampulha também participou da ação.

Criam-se vínculos empregatícios para crianças a partir de oito anos de idade, embora o ECA considere crianças (portanto, protegidas do trabalho) aqueles que têm até 12 anos incompletos.

Pressionados, Congresso e governo procuraram mostrar sinais de ação. Mas, a pretexto de coibir a migração descontrolada de jovens e adolescentes, propõem medidas que mercantilizam ainda mais o futebol, favorecem os clubes e não exigem destes nenhuma contrapartida social. Estão em debate alterações na Lei Pelé tais como a diminuição da idade para vincular e federar atletas. Criam-se vínculos empregatícios para crianças a partir de oito anos de idade, embora o ECA considere crianças (portanto, protegidas do trabalho) aqueles que têm até 12 anos incompletos. Segundo este critério, pela primeira vez a Federeção Paulista de Futebol e alguns clubes de São Paulo criaram novos mecanismos para lucrar com as crianças. São os campeonatos paulistas sub-11 e sub-13 anos, instituídos em janeiro.

A tentação para transformar esporte em lucro é imensa. O impulso econômico proporcionado pela prática de modalidades esportivas, somado às atividades de produção, comércio e serviços ligados direta ou indiretamente ao esporte movimentou R$ 37,1 bilhões em 2005, valor correspondente a 1,95% do PIB brasileiro.

Em nome desta receita, esquece-se a uma dimensão cultural do esporte, que torna particularmente o futebol um fenômeno social. Esta dimensão está no futebol praticado nas ruas e nos campos pelados de terra batida, revelando todo o seu potencial educativo e criador de comportamentos sociais, e que, em certa medida resiste ao entretenimento do espetáculo esportivo.

A armadilha está em enxergar só o negócio, que nega o ócio. Violenta-se, assim, a própria origem do esporte. O futebol foi organizado na Inglaterra vitoriana e incorporado nas public schools por sugestão de Thomas Arnold [1], pedagogo inglês no século XIX. Foi este sentido, educacional e comunitário, que levou o esporte “bretão” a espalhar-se pelo mundo.

O futebol inglês está entre os mais ricos do mundo. Os clubes são obrigados a manter trabalho junto às comunidades, criar centros e escolas, submeter-se a uma rede de proteção à infância.

Também se esquecem exemplos bem-sucedidos, inclusive do ponto de vista financeiro, porque guiados por projetos menos imediatistas. É o caso da Inglaterra, cujos clubes de futebol estão entre os mais ricos do mundo [2]. Lá, os clubes são sociedades anônimas de capital aberto. Mas a legislação britânica é rigorosa no controle e na definição de responsabilidades sociais para as entidades — neste caso empresas esportivas.

Desde o final dos anos 1980, em resposta à violência promovida no futebol pelo chamado “hooliganismo”, a legislação obriga os clubes a manter trabalho junto às comunidades, principalmente para as crianças e jovens. Graças a isso, criaram-se, por exemplo, centros comunitários e escolas que ensinam futebol, informática e reforço escolar.

Há também uma forte rede de proteção à infância. Chamada de “The Child Protection in Sport Unit (CPSU) [3]” encarrega-se de fiscalizar e punir abusos cometidos contra crianças e adolescentes. O Child Protection é parte do The National Society for the Prevention of Cruelty to Children (NSPCC) organização fundada em 1884, antes com o nome de London Society, alterado para National Society em 1889. Os clubes de futebol são parte deste sistema e só podem receber crianças após aval do sistema, estando obrigados a seguir as orientações e condutas definidas por ele.

No Brasil, apesar dos múltiplos benefícios oferecidos pelo Estado aos clubes (a Timemania é apenas o mais recente), e da tolerância infinita diante da sonegação de impostos (em especial as contribuições previdenciárias), não há, ainda, nenhuma exigência legal que os comprometa com obrigações e responsabilidades sociais. O Estado despreza suas próprias prerrogativas e deixa de adotar medidas que defendam a juventude, ou que efetivem a relevância que o futebol pode ter em sua formação. Surge um triste híbrido de liberalismo com clientelismo. Foi um decreto-lei no Estado Novo, assinado por Getúlio Vargas em 1941 (depois convertido em Lei 3199/41) que deu aos clubes a condição de base do sistema esportivo brasileiro. Na essência, a lógica foi reforçada por nova lei, de 1975 (na ditadura militar) e pelas leis “Zico” e “Pelé”, frutos da onda neoliberal dos anos 1990.

Tudo isto gera, como conseqüência falta de controle e fiscalização efetivas sobre os clubes, permitindo, muitas vezes, que jovens deixem de estudar para ficar à disposição de possíveis negócios. Mesmo o Estatuto do Torcedor, que deveria transformar estádios em espaços seguros e confortáveis, pela lógica do entretenimento, surtiu efeitos limitados. O exemplo emblemático foi a tragédia ocorrida em 26 de novembro 2007 na Fonte Nova, na Bahia, como 7 torcedores desabando da arquibancada.
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Alexandre Machado Rosa é colaborador do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique.

[1] Thomas Arnold (1795-842), sacerdote inglês, foi influenciado pelas idéias pedagógicas de Pestalozzi, promoveu o desenvolvimento do esporte na escola e na sociedade inglesa de 1800. Em 1828, foi nomeado reitor do Colégio de Rugby, uma cidadezinha perto de Oxford, onde encontrou um ambiente de completa decadência moral, e propôs modificá-lo. Além da educação intelectual e da religiosa, Arnold deu lugar de destaque à educação física. Incrementou a prática dos jogos ao ar livre, que segundo ele tinham um grande valor na formação da personalidade dos jovens. Conciliou os diversos movimentos pedagógico-culturais ligados à atividade motora com as novas exigências e concepções pós vitória do parlamentarismo e do esportivismo inglês

[2] Para se ter uma idéia, na lista publicada em 2007 pela empresa de consultoria suiça, Delloite, dos dez clubes mais ricos do mundo, quatro são ingleses

[3] Disponível na http://www.thecpsu.org.uk/Scripts/content/Default.asp

FONTE: http://diplo.uol.com.br/2008-06,a2373

domingo, 15 de junho de 2008

Imagens do real

Abaixo, uma contribuição em forma de imagens do professor de educação física Ruy Braga para o Movimento do Real. Obrigado Ruy!!!

Para visualizar em tamanho maior, clique na mesma.



sexta-feira, 13 de junho de 2008

Bebidas energéticas


Bebidas energéticas estão associadas a comportamento de risco entre adolescentes

Tara Parker-Pope

Pesquisadores da área de saúde identificaram um novo e surpreendente indicador para comportamento de risco entre adolescentes e jovens adultos: bebidas energéticas.

Energéticos com altas doses de cafeína, como Red Bull, Monster, Amp (no Brasil, Burn e Flying Horse), cresceram em popularidade na última década. Cerca de um terço dos jovens entre 12 e 14 anos afirma tomar bebidas energéticas regularmente, o que corresponde a mais de US$ 3 bilhões em vendas anuais nos Estados Unidos.

A tendência tem gerado crescente preocupação entre pesquisadores da área de saúde e profissionais de educação. Em todo o país, a bebida tem sido associada a relatos de náusea, batimentos cardíacos anormais e entradas nas emergências dos hospitais.

Em Colorado Springs, muitos estudantes do ensino médio ficaram doentes no ano passado depois de tomar Spike Shooter, uma bebida com alta concentração de cafeína, levando o diretor do colégio a banir as bebidas. Em março, quatro estudantes do ensino fundamental em Broward County, Flórida, foram parar na emergência com palpitações no coração e sudorese depois de beber o energético Redline. Em Tigard, Oregon, professores enviaram este mês aos pais de alunos um e-mail alertando que os estudantes que levavam energéticos para a escola estavam "literalmente alterados pela agitação da cafeína ou se recuperando de um choque de cafeína".

Novas pesquisas sugerem que as bebidas estão associadas a uma questão de saúde muito mais preocupante do que os efeitos de agitação da cafeína - cujos riscos são aceitáveis.

Em março, o Journal of American College Health publicou um relatório sobre a ligação entre bebidas energéticas, atletas e comportamento de risco. A autora do estudo, Kathleen Miller, pesquisadora sobre vício da Universidade de Buffalo, afirma que o estudo sugere que o alto consumo de bebidas energéticas está associado a comportamentos típicos de usuários de drogas, um conjunto de comportamentos agressivos e arriscados que inclui sexo sem proteção, abuso de substâncias e violência.

A descoberta não significa que as bebidas causam mau comportamento. Mas os dados sugerem que o consumo regular de bebidas energéticas pode ser um sinal de alerta aos pais de que seus filhos têm mais tendência a assumir riscos para sua saúde e segurança. "Parece que os jovens que tomam muito bebidas energéticas têm mais tendência a assumir riscos", disse Miller.

A American Beverage Association (Associação Americanas de Bebidas) afirma que seus membros não comercializam bebidas energéticas para adolescentes. "O público-alvo são adultos", disse o porta-voz Craig Stevens. Ele afirma que a venda está direcionada às "pessoas que realmente podem pagar os dois ou três dólares pelo produto".
As bebidas possuem uma variedade de ingredientes em diferentes combinações: estimulantes naturais como guaraná, ervas como ginkgo e ginseng, açúcar, aminoácidos, incluindo taurina, e também vitaminas.

Mas o principal ingrediente ativo é a cafeína.

A dose de cafeína varia. Uma porção de 340 gramas do energético Amp contém 107 miligramas de cafeína; a mesma quantidade de Coca Cola ou Pepsi tem de 34 a 38mg. O energético Monster tem 120mg de cafeína e o Red Bull tem 116mg. A mais alta concentração é a do Spiker Shooter, que contém 428mg de cafeína em cada 340 gramas, e o Wired X344, com 258mg.
Steve ressalta que as bebidas energéticas mais conhecidas geralmente têm menos cafeína do que uma xícara de café. Na Starbucks, a dose de cafeína varia segundo a bebida, de 75mg em um cappuccino ou latte de 350ml, até 250mg em um café de 350ml passado no coador.

Uma preocupação em relação a essas bebidas é que, pelo fato de serem servidas geladas, podem ser consumidas em grandes quantidades e mais rapidamente do que bebidas quentes como café, que são bebericadas. Outra preocupação é a crescente popularidade da mistura de energéticos com álcool. A adição de cafeína pode fazer usuários de álcool se sentirem menos bêbados, mas a coordenação motora e o tempo de reação visual são tão prejudicados quanto quando bebem álcool puro, segundo um estudo de abril de 2006 publicado no informativo médico Alcoolismo: Pesquisas Clínicas e Experimentais.

"Você fica 100% bêbado do mesmo jeito, só que um bêbado acordado", disse drª. Mary Claire O'Brien, professora associada dos departamentos de medicina emergencial e serviços de saúde pública da Wake Forest University Baptist Medical Center, em Winston-Salem, na Carolina do Norte.

O'Brien pesquisou o uso de álcool e bebidas energéticas entre estudantes universitários em 10 universidades na Carolina do Norte. O estudo, publicado este mês na Academic Emergency Medicine, mostrou que estudantes que misturaram energéticos com álcool ficaram bêbados com duas vezes mais freqüência do que aqueles que consumiram só álcool, e tiveram uma tendência muito maior a se machucarem enquanto estavam embriagados ou necessitaram tratamento médico durante a bebedeira. Pessoas que misturaram energéticos com álcool tiveram maior tendência a ser vítimas ou protagonistas de comportamento sexual agressivo. O efeito permaneceu mesmo depois que os pesquisadores controlaram a quantidade de álcool consumida.

Fabricantes de bebidas energéticas afirmam não encorajar os consumidores a misturá-las com álcool. Michelle Naughton, porta-voz da PepsiCo, que comercializa o energético Amp, disse: "Esperamos que os consumidores apreciem nossos produtos com responsabilidade."

Tradução: The New York News Service

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2008/06/13/ult574u8561.jhtm

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Melhor amigo do cachorro



Foto enviada pelo Evandro Euriques, professor da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO), ao site do Núcleo Piratininga de Comunicação.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Índice de não-leitores é de 45%, aponta pesquisa

Da Redação*
Em São Paulo

Entre os mais de 5.000 entrevistados pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-livro, 45% deles são identificados como não-leitores, que não leram nenhum livro nos últimos três meses. Desse público, 47% é mulher e 53%, homem. A pesquisa teve como universo a população com 5 anos ou mais (estimativa de 172.731.959pessoas), alfabetizadas ou não.

Para o secretário de educação básica do MEC (Ministério da Educação), André Lázaro, o resultado é positivo. "O copo está razoavelmente cheio, mas a nossa sede é muito maior. A fotografia hoje diz que estamos em um bom caminho, mas essas informações nos estimulam a trabalhar mais".

O relatório, segundo a Agência Brasil, aponta que os classificados como não-leitores estão na base da pirâmide social: 28% deles não é alfabetizado e 35% estudou só até a 4ª série do ensino fundamental.

Metade do grupo pertence à classe D e a maioria possui renda familiar de 1 a 2 salários-mínimos. A pesquisa indica ainda que os livros religiosos são os que mais atraem esse público: 4,5 milhões disseram ler a Bíblia.

Entre os motivos para não ler, a falta de tempo aparece como o mais apontado, com 29%. Outros 28% não lêem porque não são alfabetizados e 27% porque não gostam ou não têm interesse. Entre as limitações, 16% afirmaram que possuem um ritmo lento de leitura e outros 7% disseram não compreender a maior parte do que lêem.

O relatório ressalta que a leitura aparece em quinto lugar entre as atividades preferidas dos entrevistados, ficando atrás de ver televisão, ouvir música, ouvir rádio e descansar.

As regiões Norte e Nordeste, que apresentam os menores IDH (Índices de Desenvolvimento Humano) do país, também registraram as menores médias de leitura por habitante/ano: 3,9 e 4,2 respectivamente. A média nacional é de 4,7 livros ano/habitante.

*Com Agência Brasil

FONTE: http://educacao.uol.com.br/ultnot/2008/05/28/ult105u6551.jhtm

quarta-feira, 21 de maio de 2008

CBF x VIVO

Mais um round perdido pela CBF na sua briga contra a VIVO. Ontem (terça-feira) a ministra da 3ª turma do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Fátima Andrighi negou mais uma vez um recurso da Confederação Brasileira de Futebol de quebrar o contrato com a VIVO de forma unilateral sob alegação de prejuízo em relação ao acordo fechado em 2005.

O acordo prevê patrocínio da operadora de telefonia celular até depois da Copa de 2014. O contrato prevê o ganho de 8 milhões de reais por ano para a CBF que afirma, no processo que move contra a VIVO, poder receber 10 milhoes de reais a mais se tivesse um novo contrato.

Por sua vez, a VIVO provoca, afirmando que o ganho é proporcional ao desempenho da seleção brasileira nos gramados.

A Copa já começou!!!

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O QI, o avestruz e a imprensa baiana

Por Manuel Muñiz em 13/5/2008

A semana que passou deixou a Bahia em polvorosa. Tudo porque um professor de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Antonio Natalino Manta Dantas, afirmou que os baianos têm QI (Quociente de Inteligência) baixo. Deixou transparecer, também, um certo desdém para com os alunos da raça negra que passaram a integrar a Universidade Federal (reduto, até bem pouco tempo, de filhinhos de papai) e que, por isso, teriam feito baixar a qualidade do ensino, avaliada pelo Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes).

Ora, o próprio argumento é míope. Se os alunos são despreparados, o curso deveria ajudá-los a se formar melhor. Mas o professor quis dizer mais: que os alunos que entraram por força das "cotas" são despreparados desde a base, embora o mestre tenha atingido, em cheio, o orgulho do povo: "O baiano toca berimbau porque tem uma corda só; se tivesse mais cordas não tocaria", fuzilou.

No dia seguinte à malfadada opinião, o coordenador foi execrado em programas de rádio, TV e jornais. O assunto foi parar até na boca do governador do estado, que não perdeu a oportunidade de repreender o magistrado. No foco dos holofotes estava o professor, coordenador do curso, que uma semana depois pediu o boné e partiu, solicitando dispensa do cargo.

"Somos burros?"

Não tivesse ocorrido o fato na Bahia, acredito que a repercussão teria sido quase a mesma em todos os lugares do país: achincalhe, afobação, veleidades, emoção, irracionalidade. A imprensa agiu como a torcida que invade o gramado e bate no juiz depois de discordar de uma marcação.

Mostrou na condução do ocorrido toda a força de intolerância, a mesma que está fazendo com que o país se torne um líder em violência, capaz de cometer diabruras inimagináveis – como pais e mães sendo acusados de assassinar seus próprios filhos.

O espetáculo proporcionado pela mídia teve o mesmo destempero dispensado pelo infeliz professor para reagir contra um mau resultado dos testes de seus alunos. O que surpreendeu, no entanto, foi o clima de linchamento que se viu. E tal fato ganhou densidade tamanha que pareceu até que o professor não estava totalmente errado.

"Somos burros?", perguntavam os baianos, incrédulos, levados a refletir por programas eletrônicos e impressos, muitos construindo listas de figuras notáveis, num cenário de completo surrealismo. "Não somos, somos?"

Haverá luz no fim do túnel?

A imprensa perde a oportunidade para, realmente, fazer uma análise profunda e séria do atual quadro de formação educacional na Bahia. E, por que não, tratar a educação com a importância devida. Sabe-se, por exemplo, que inúmeras escolas públicas são capazes de aprovar alunos que não sabem, ao menos, ler. E o governador, mesmo sabendo disso, não empreende políticas concretas para mudar a situação.

Grande número de estudantes passa pelos anos escolares sem a capacidade de fazer reflexão, sem entender textos ou ser capaz de atuar com um mínimo de cidadania, ética e consciência. A Secretaria de Educação do estado sabe disso, mas faz pouco para transformar a situação. Por que?

As escolas superiores viraram verdadeiros colejões, instituições que vendem diplomas, pouco se importando com a capacidade dos formados em empreender seus ofícios, depois de deixarem essas arapucas.

Em Camaçari, por exemplo, há uma faculdade que está transformando os coordenadores em agentes de negócios, com participação nos lucros e na condução do alunado até a formação. O que diz o MEC sobre tudo isso? Onde é o final deste túnel escuro? Haverá luz?

O pior índice do país

Este esquema arquitetado pelos empresários da educação na Bahia será capaz de elevar o QI dos baianos? Será capaz de melhorar o serviço oferecido pelos novos profissionais liberais? Isso está ocorrendo? Qual é a avaliação dos médicos atualmente?

Essas e outras questões deveriam estar sendo buscadas pela imprensa. Ao invés disso, somente blá-blá-blá e um verdadeiro campeonato de bairrismo. O que a oportunidade solicita, os leitores não vão encontrar nos jornais: matérias críticas sobre os verdadeiros caminhos da educação na Bahia. Por que não fazem isso? Até aonde vão os interesses econômicos dos veículos?

O professor Dantas afirmou, em nota, estar arrependido, vítima que foi de um "arroubo de emoção". O que o professor não foi capaz de observar, graças também à imprensa, é que a sua voz, tão ecoada no estado e no Brasil, não foi capaz de ser ouvida integralmente. Afinal, este "arroubo" atingiu muita gente. E feriu a imagem que não se vê nos índices de educação.

Sete municípios baianos estão entre as 20 cidades brasileiras com pior Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (Ideb). O indicador, divulgado pelo governo federal, avalia a qualidade de ensino das escolas públicas. Entre as capitais pesquisadas, Salvador tem o pior índice do país.

A gravidade do tema

Entre as capitais com os piores índices, Salvador lidera com a nota 2,8. Na lista dos 20 municípios com o pior desempenho nas escolas da primeira à quarta série, há sete cidades da Bahia. Maiquinique tem o segundo pior ensino do país, com a nota 0,7. Os outros municípios são: Biritinga, Itarantim, Inhambupe, Lamarão, Serrinha e Sítio do Mato.

De acordo com relatório da liderança do PT na Assembléia Legislativa da Bahia, apenas 18,0% dos jovens baianos com idade entre 15 e 17 anos estão cursando o ensino médio. Nesse quesito, a Bahia ocupa a sétima pior posição entre os estados brasileiros, estando bem abaixo da média nacional que é de 34,7% dos jovens entre 15 e 17 anos cursando o ensino médio. Somente 3,1% dos jovens baianos entre 18 e 24 anos estão cursando o ensino superior. Nesse quesito, a Bahia ocupa a quinta pior posição entre os estados brasileiros, estando bem abaixo da média nacional que é de 7,4% dos jovens entre 18 e 24 anos cursando o ensino superior.

Estará totalmente errado o tal professor, ex-coordenador de Medicina da UFBA ao afirmar que o baiano tem baixo QI? Talvez sim, no que se refere à intenção de ferir. Mas, diante dos números frios, talvez não, muito embora não seja uma questão de "burrice". Se não é, qual é a questão para desempenhos tão esquálidos? Por que a situação da educação beira a calamidade? Diante da gravidade do tema, o alerta do professor não poderia ser visto com maior profundidade? Se isso ocorresse na França, o esquentado professor seria enxotado de suas funções?

"Gerentes" de negócios

O ex-coordenador, com quase 70 anos, está saindo de cena. Ficam o governador, Jaques Wagner, o senador Antonio Carlos Magalhães Júnior, entre tantos outros políticos, educadores e líderes sociais que têm responsabilidade sobre a área, mas que, como vimos, pouco fazem para mudar o descalabro da educação na Bahia. Por que será? Quais são os verdadeiros interesses desses senhores?

Para a imprensa da Bahia, no entanto, agora parece que tudo vai bem outra vez. Afinal o coordenador já deixou o cargo e o "ódio destilado" foi plenamente justificado. Com isso, resolve-se o problema, pelo menos da imagem dos baianos. Já que a realidade é bem diferente. Estão aí os meninos e meninas analfabetos já na quinta e sexta séries. Estão aí os milhares de profissionais liberais formados e, paradoxalmente, sem uma verdadeira formação. As faculdades continuam "vendendo" diplomas, lideradas não por coordenadores, mas por gerentes de negócios – de forma escancarada ou não. Embora tudo isso seja indecente, a imprensa continua a tratar o assunto com distanciamento.

Qual é o QI do avestruz que enterra a cabeça diante do desafio? Será a imprensa baiana a maior das aves?

FONTE: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=485FDS003Retirado em 19.05.08